Casos de AIDS crescem 37%
De 4 pessoas apenas com o diagnóstico nas mãos anualmente, hoje, uma média de 200 acabam descobrindo que estão contaminadas
Circuito Mato Grosso Da Redação
O número de casos diagnosticados da AIDS cresceu 37% nos últimos 10 anos em Cuiabá. De 166 registros, em 1997, chegou a 228, no ano passado (balanço não oficial). Segundo estatísticas da Secretaria Municipal de Saúde (SMS), em 23 anos, o avanço da doença chegou a 5.215%. Isso significa que de 4 pessoas apenas com o diagnóstico nas mãos anualmente, hoje, uma média de 200 acabam descobrindo que estão contaminadas. Em 2008, o Serviço de Assistência Especializada (SAE) atendeu por mês uma média de 19 novos pacientes infectados pelo vírus HIV. A maioria na faixa etária de 20 a 45 anos, mas a doença tem se espalhado de maneira indiscriminada também entre os adolescentes, idosos e sem grande diferença sobre homens e mulheres. Atualmente, todos são alvos em potencial.
A gerente do SAE, a enfermeira Márcia Quatti, explica que um total de 2.630 casos já foi identificado pela saúde pública, sendo 36% referentes às mulheres e 64% aos homens, mas nos últimos 10 anos, houve um equilíbrio no contágio entre os sexos masculino e feminino que estão em pé de igualdade. Desse total, 84% compreenderam pessoas com idades que variavam entre 20 e 49 anos. Outros 10% foram pessoas que descobriram a AIDS a partir dos 50 anos. Este ano, 1.014 pacientes estão cadastrados ao serviço e pelo menos 900 fazem acompanhamento. "Com o atendimento na saúde e as medicações disponíveis a condição de vida deles melhorou, mas isso não justifica tantas pessoas estarem se contaminando por falta de cuidados, inclusive os adolescentes que estão na flor da idade".
A grande preocupação hoje é com a prevenção. Palavra que serve de enfeite na vida de tanta gente que ainda acredita num velho conceito: "não faço parte do grupo de risco". Mas quem vê "cara não vê HIV", como brincam os soropositivos entrevistados pela equipe de reportagem. Homens e mulheres lindos, saudáveis, conhecidos, simpáticos, sem muita experiência sexual, de família e com conceitos espirituais elevados podem transmitir, sem saber, a doença. É impossível conhecer o passado pregresso de alguém rapidamente e sem ter os exames laboratoriais que comprovem a veracidade dos fatos. Mesmo quem está num relacionamento estável pode "pegar", pois não há meios de assegurar a fidelidade absoluta dos parceiros. Uma única relação desprotegida pode mudar toda uma vida ou várias, porque os filhos podem ser contaminados. "É como brincar de roleta russa", diz a enfermeira.
Feminização - O ginecologista Luiz Augusto Menechino, que atende no Centro de Saúde Jardim Independência, região do Verdão, acredita que tem existindo uma "feminização" da doença. Levantamentos nacionais mostram que a porcentagem de mulheres que convive com o HIV é a que mais cresceu nos últimos 10 anos. O mesmo acontece no Estado. Diferente da década de 80, quando surgiram os primeiros casos da AIDS, e se definiu que apenas homossexuais masculinos, usuários de drogas injetáveis e receptores de transfusão de produtos sanguíneos poderiam se contaminar. "As mulheres casadas foram sem dúvida as mais afetadas porque se achavam imunes à doença".
Do ponto de vista anatômico e fisiológico, o sexo feminino é mais suscetível à infecção pelo HIV por várias razões, uma delas é que a vagina oferece ao vírus uma superfície de contato mais extensa. As mulheres estão sujeitas às repetidas infecções ginecológicas e a doenças sexualmente transmissíveis que abrem fissuras na mucosa e atraem glóbulos brancos para defender o local. Lembrando que eles são as células-alvo do vírus. As adolescentes constituem a subpopulação feminina mais vulnerável - não apenas pelo eventual comportamento de risco, mas pelas alterações inflamatórias do colo uterino características da imaturidade dos órgãos genitais nessa fase da vida reprodutiva.
Ainda mais influentes que fisiologia reprodutiva, as condições socioeconômicas conspiram a favor da transmissão preferencial do HIV às mulheres. A dependência financeira e a tradicional submissão às regras estabelecidas pelos homens, dominadores na maioria das sociedades, colocam as mulheres em posição de desvantagem para exigir de seus parceiros a prática de relações sexuais seguras. A rejeição sistemática ao uso do PRESERVATIVO, a poligamia e o gosto dos homens por mulheres jovens, sexualmente imaturas, portanto, mais vulneráveis, completam o cenário para a propagação da epidemia feminina.
Para o infectologista Sérgio Fernandes, essa é uma epidemia em que o número de casos aumenta com uma velocidade lenta, mas constante e que é sinônimo de preocupação à saúde pública. Mesmo com expectativa de vida mais longa, devido aos tratamentos, o custo desse investimento não é barato. Há medicações que custam mais de R$ 30 mil, alguns pacientes chegam a fazer uso freqüente durante anos e o Estado não pode deixar de subsidiar. Sem falar no lado social. Muitas mães acabam transmitindo a doença para os filhos. "Mesmo durante os 5 ou 10 anos que a doença não mostra sinais visíveis, o vírus se multiplica incessantemente, a pessoa está apta a transmiti-la, por isso após um comportamento de risco, o ideal é fazer exames para verificar se houve contaminação".
Sofrimento T.O.S., 30, moradora do bairro Pedra 90, descobriu que estava com AIDS há quase 4 anos, quando marido morreu. Até então, nada disso passou pela cabeça dela. Com o resultado dos exames, deparo-se com um grande sofrimento: os três filhos também estavam com o vírus HIV. O mais velho hoje tem 12 anos, não faz idéia do que se passa, nem por que precisa tomar todos os dias tantos remédios. "Sempre digo a ele que são vitaminas que farão ele engordar e crescer sadio", desabafa. Chorando, afirma que o mais difícil não é enfrentar a condição de SOROPOSITIVO, mas conviver com a incerteza de que pode não estar viva para continuar cuidando das crianças.
Ela conta que o marido começou a passar mal de uma hora para outra. Perdeu peso. Foi internado pelo menos 4 vezes no pronto-socorro, mas os médicos nunca descobriam o motivo. Num primeiro momento, cogitou-se um quadro de meningite. A conclusão aconteceu tarde demais, ele já estava num estágio avançado da AIDS, ficou 3 dias internado na Unidade de Tratamento Intensivo (UTI) e logo veio a óbito. O chão se abriu quando veio o motivo da morte. Para cuidar das crianças, T. parou de trabalhar, já que não há meios de explicar as saídas freqüentes para ir ao médico, nem possíveis internações. Revelar o motivo está fora de cogitação. "Apenas meus irmãos e irmãs sabem, ninguém mais, tem que ser assim, a discriminação pode ser mais cruel que a doença".
Depois do diagnóstico, chegou a ter um namorado, contou a ele a verdade, até para que o uso do PRESERVATIVO fosse algo "religioso", mas diante das dificuldades, o relacionamento não durou mais que 2 anos. Hoje, ela confessa estar concentrada no tratamento dela e das crianças. O resto é irrelevante. Todos os meses, ela vai ao SAE, faz os exames, acompanha a quantidade da carga viral dela e dos filhos, busca fazer o tratamento direito. "Levamos uma vida normal, as crianças vão à escola, jogam bola, têm amigos, também procuro ser alegre e curtir cada momento ao lado deles".
Sobrevivente O ex-vendedor Hugo José Marocco, 45, é definitivamente alguém que não tem medo de nada, nem da morte. Após idas e vindas do hospital, febres e tosse sucessivas ao longo de 6 meses, emagrecimento e grande discriminação, passou a entender a condição de SOROPOSITIVO como algo que "precisa passar". Ao contrário de muitos que desistem de ser feliz, ele resolveu que se essa é a cruz que precisa carregar, que ela seja, então, de papelão ou isopor. "Hoje minha carga viral é mínima, levo uma vida tranqüila, saudável e feliz, ao lado da minha mãe, da família, amigos e vizinhos, não escondo de ninguém que tenho AIDS".
Ele conta que se contaminou aos 24 anos ao se relacionar com uma namorada, com quem acabou se casando. Naquela época não era comum os jovens se preocuparem em se prevenir da doença. A moça morreu 7 anos depois de se infectar, em decorrência de uma tuberculose. "Até hoje tenho trauma de hospital, faço todo tratamento corretamente para não ter que me lembrar de como foi estar com ela naquele lugar e ouvir um médico dizer se eu estava preparado para morrer, porque para ele, eu não tinha mais de 1 ano de vida".
Já passou por várias fases. No começo, quando ainda estava com o vírus incubado, passava noites em claro, ingeria bebida alcoólica e insistia em ter um comportamento arredio. Com isso, em 3 anos a doença deu os primeiros sinais. O acompanhamento com psicólogo, médico e o uso de medicamentos ajudou a superar tudo. Apesar do ganho da qualidade de vida, ele orienta as pessoas a se cuidarem. "Existem medicamentos, mas eles são fortes e provocam inúmeras reações, os efeitos colaterais são terríveis, se é possível evitar, não vejo motivo para alguém se contaminar".
Números gerais - Há 5,7 mil casos de AIDS notificados em Mato Grosso. São pessoas que já desenvolveram os sinais da doença e estão em tratamento. Agora, foge de qualquer estatística oficial os números de infectados pelo vírus HIV, que no Estado extrapola 15 mil pessoas, conforme o índice de prevalência nacional de 0,6% da população. Desse total, 3.381 casos são do sexo masculino e 2.341 do sexo feminino, com 9% do total ocorrendo na população de 50 anos ou mais. Os óbitos no período de 1985 a 2008 chegaram a 1.390 casos.
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