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09/03/10, às 11h49m (GMT -03;00)

A pílula de depois de amanhã

Um novo contraceptivo de emergência tem efeito até cinco dias após a relação sexual - dois a mais do que as tradicionais "pílulas do dia seguinte"

Revista Veja
Naiara Magalhães

Todos os anos 80 milhões de mulheres no mundo inteiro engravidam sem planejar. Delas, 60% optam por interromper a gestação - boa parte de forma bastante arriscada. Vinte milhões dos abortos realizados anualmente são conduzidos, segundo a Organização Mundial de Saúde, por pessoas despreparadas e em lugares sem os cuidados mais básicos de higiene e segurança. Tais descuidos matam a cada ano quase 70 000 mulheres. Apesar de aterrador, o cenário já foi (bem) pior. No Brasil, o número de abortos clandestinos realizados na década de 80 era quatro vezes maior do que o 1 milhão estimado hoje. Entre as principais causas dessa mudança estão a disseminação das políticas de planejamento familiar e o aperfeiçoamento dos métodos anticoncepcionais, especialmente dos contraceptivos de emergência. Distribuídas pelo Ministério da Saúde desde 2002, as chamadas "pílulas do dia seguinte" evitam 30% dos abortos clandestinos no país. Tomadas até 72 horas depois da relação sexual, elas apresentam uma alta taxa de eficácia na prevenção de uma gravidez indesejada. Recentemente, o laboratório francês HRA Pharma lançou no mercado europeu uma versão mais duradoura da "pílula do dia seguinte", que pode ser tomada até cinco dias depois do sexo sem proteção. Sob o nome comercial de ellaOne, a nova pílula está em análise na FDA, a agência americana de controle de medicamentos.

O efeito mais prolongado da ellaOne explica-se por seu mecanismo de ação. Em relação a suas antecessoras, ela é a única a agir diretamente sobre a progesterona, inibindo a sua atuação. Do latim progestare, "a favor da gestação", esse hormônio está envolvido em todas as etapas da gravidez. Na dosagem prescrita, uma PÍLULA de 30 miligramas de acetato de ulipristal (seu princípio ativo) evita ou retarda a ovulação. A ação das "pílulas do dia seguinte" lançadas na década de 90 é mais pontual. Elas interrompem o funcionamento do hormônio luteinizante, responsável especificamente por desencadear a ovulação. Assim, inviabilizam a fecundação. Elas também podem evitar uma gravidez caso os óvulos já tenham amadurecido. Isso porque tendem a tornar o ambiente uterino hostil ao espermatozoide. Dessa forma, impedem que o gameta masculino chegue às trompas de Falópio e fertilize um óvulo. As pílulas podem ainda diminuir o ritmo dos movimentos das trompas, essenciais para o encontro do espermatozoide com o óvulo (veja o quadro).

Como sempre acontece quando o assunto é gravidez indesejada, o lançamento da ellaOne na França, Itália, Espanha, Inglaterra e Alemanha, entre outros doze países europeus, suscitou um intenso debate entre os médicos e os grupos antiaborto, ligados à Igreja Católica. Para muita gente, além de representarem um convite ao sexo sem proteção, os contraceptivos de emergência são abortivos. Um documento de orientação aos médicos brasileiros do Ministério da Saúde é categórico: "Não existe nenhuma sustentação científica para afirmar que a AE (anticoncepção de emergência) seja método que resulte em aborto, nem mesmo em porcentual pequeno de casos". O argumento de quem atribui propriedades abortivas a esse tipo de anticoncepcional é que o remédio altera a mucosa da parede do útero, impedindo, assim, a fixação do óvulo. A questão esquecida pelos grupos antiaborto é que os contraceptivos orais de emergência, quaisquer que sejam eles, não funcionam se a fecundação já tiver ocorrido. Diz o ginecologista Thomaz Gollop, professor de genética médica da Universidade de São Paulo: "Ainda que o remédio promova alterações na parede do útero, isso não significa nada, uma vez que a pílula já impediu a fecundação".

Não há dúvida de que o aperfeiçoamento dos contraceptivos de emergência representa uma grande conquista para as mulheres diante de falhas dos métodos anticoncepcionais tradicionais ou de uma eventual relação sexual sem proteção - o que não deveria ocorrer nunca, é claro. O problema é recorrer a esses remédios rotineiramente. "Há mulheres que tomam a pílula do dia seguinte como se fosse aspirina", diz o ginecologista e sexólogo Gerson Lopes. "É um perigo." Por causa das altas doses de hormônios contidas em sua fórmula, seus efeitos colaterais vão de dor abdominal, náusea e vômito a alterações no ciclo menstrual e sintomas de ansiedade.

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