Soropositivos sofrem com escassez de antiretrovirais no país. Em Minas, pelo menos 12 cidades enfrentam a crise
Estadp de Minas Luciane Evans
Um país que tanto se orgulha de ser um dos únicos do mundo a garantir o direito universal a medicamentos para pacientes HIV-positivos, desde 1996, poderá responder na Justiça pela falta de antirretrovirais nos últimos meses. Esta semana, mobilizadas em fórum nacional, organizações não governamentais (ONGs) que defendem os direitos dos portadores de AIDS entrarão, cada uma em seu estado, com representação no Ministério Público contra o déficit de medicamentos enfrentado por usuários do Sistema Único de Saúde (SUS) desde o ano passado. O apelo é a resposta de quem sobrevive graças aos compridos diários. Um único dia sem a medicação é uma chance a mais para a propagação do vírus e, por esse motivo, pacientes definem a situação como revoltante e vergonhosa.
Somente em Minas Gerais, 15,7 mil pessoas infectadas buscam os ANTIRRETROVIRAIS no SUS mensalmente, mas desde novembro, em pelo menos 12 cidades, incluindo Belo Horizonte (veja lista), a resposta para muitos que buscam os medicamentos tem sido: "volte no mês que vem". O problema, que não ocorre apenas em Minas, teve início no ano passado, quando o DEPARTAMENTO DE DST/AIDS e Hepatites Virais do Ministério da Saúde informou ter havido dificuldade na aquisição do medicamento Abacavir, comprimido de 300mg.
Naquela época, o programa aconselhou que médicos substituíssem temporariamente a indicação do remédio até que a situação se normalizasse - o que estava previsto para fevereiro. "Mas, até agora, nada. O antirretroviral Abacavir, que tem faltado em todo o país, é direcionado para os pacientes com caso de
AIDS avançado, ou seja, ele é de extrema importância para o tratamento. Só em Minas, 8 mil pessoas são usuárias dele", alerta o administrador do Fórum ONG/AIDS - Minas Gerais, Thiago Victor Barbosa, ao acrescentar que, com a situação, o fórum em Minas resolveu apurar a realidade em todo o estado. "Fizemos um recente levantamento com as 54 unidades de distribuição de medicamentos em Minas Gerais e 12 nos responderam. Destas, em todas estavam faltando, além do Abacavir, pelo menos mais dois remédios: Lamivudina (3TC) 150mg, Zidovudina (AZT) 300mg e Lamivudina (3TC) 150mg, que são direcionados para aqueles que estão começando a se tratar."
De acordo com Thiago, o déficit afeta a continuidade do tratamento. "Por isso, os fóruns de todo o Brasil estão protocolando esta semana no Ministério Público representações contra esse desrespeito aos soropositivos brasileiros." A.S., de 47 anos, há 13 depende de todos esses medicamentos para ter qualidade de vida. "Mas meu médico soube do descaso e me alertou antes, dizendo que, infelizmente, teríamos que trocar a medicação, porque não havia Lamivudina no SUS de Belo Horizonte. Eu, que já estava acostumada, passei mal com o remédio substituto, senti tonteiras, vomitei muito e fiquei fraca, o que é péssimo para um SOROPOSITIVO. Comprar o medicamento é impossível, é muito caro", lamenta, acrescentando que a situação é vergonhosa. "É uma falta de respeito e desconsideração de quem não tem noção do que é depender de um remédio para ter qualidade de vida."
Dados comprovam a eficácia do programa
De acordo com dados da Secretaria de Estado de Saúde (SES), entre 1996, quando o a medicação entrou para o SUS, e 2008, 10 mil pessoas morreram de AIDS em Minas . Em 2008, o número caiu para 698, graças aos medicamentos distribuídos, o que dá a dimensão da importância da medicação. O abalo que a falta desses remédio tem trazido aos portadores da doença terá fim esta semana, promete a SES. Reconhecendo que a falta é preocupante, a farmacêutica da secretaria, Patrícia Almeida de Andrade, diz que houve baixa no estoque e que a situação está sendo resolvida. "Estamos repondo tudo. Já recebemos as medicações no dia 16, e elas já foram entregues às 54 unidades de distribuição do estado", diz. Mas, a quantidade que teria que atender a pelo menos as 15, 7 mil pessoas que buscam os ANTIRRETROVIRAIS em Minas é o bastante para apenas um mês. "Estamos esperando chegar o restante", afirma Patrícia, lembrando que a falta de apenas um remédio pode fazer com que o paciente se torne resistente a toda a medicação.
O primeiro a faltar no país foi o Abacavir, em dezembro. Segundo o Ministério da Saúde, o comprimido é importado e houve atraso na entrega. Mas a chegada do medicamento foi prevista para ocorrer até o fim de abril. Em relação aos outros remédios que faltam em alguns estados, entre eles Minas, o ministério informou que a situação foi causada por redução dos estoques de alguns itens produzidos no Brasil. "A logística de medicamentos ANTIRRETROVIRAIS trabalha com estoques reguladores de no mínimo de três meses. Devido a atrasos nas entregas programadas dos medicamentos Lamivudina (3TC) 150mg, Zidovudina (AZT) 300mg Lamivudina (3TC) 150mg, a quantidade desses ANTIRRETROVIRAIS enviados a cada remessa aos estados foi reduzida, para garantir a cobertura em todo o território nacional. Isso gerou sobrecarga da estrutura logística de distribuição em alguns locais. A distribuição da produção entre os laboratórios nacionais já foi reprogramada, de forma a garantir o abastecimento e a recomposição dos estoques estratégicos", informou.
Mapa do déficit
As 12 cidades onde foi registrada falta de medicamentos para soropositos em Minas Gerais