| 12/10/08, às 12h34m (GMT -03;00) |
A francesa e a Aids
A premiação encerra a polêmica sobre quem descobriu o vírus HIV. O maior mérito é de Françoise Barré-Sinoussi
Revista Época Cristiane Segatto
FLAGELO
Mulher conforta a irmã, vítima da AIDS, numa enfermaria de Lilongwe, capital do Malaui. Na África, a epidemia é devastadoraO Prêmio Nobel de Fisiologia ou Medicina, anunciado na semana passada, fez mais que valorizar a importância da descoberta do vírus da AIDS, ocorrida em 1983. A escolha dos vencedores parece ter colocado um ponto final numa das maiores polêmicas da ciência atual: a dúvida sobre quem foi o primeiro a identificar o HIV. O francês Luc Montagnier e o americano Robert Gallo disputaram a primazia durante muitos anos e até recentemente eram considerados co-autores da descoberta. Depois de uma longa investigação, o comitê que elege os premiados concluiu: o causador da doença foi revelado por Montagnier e Françoise Barré-Sinoussi. Para muitos especialistas, o principal mérito é da francesa.
Montagnier dirigia o Instituto Pasteur, em Paris, e decidiu criar um departamento para estudar se alguns tipos de câncer eram causados por vírus e retrovírus (tipo de vírus que não tem DNA e usa o material genético da célula infectada para se multiplicar). Montagnier não era especialista em retrovírus. Por isso, trouxe para a equipe, em 1977, Jean-Claude Chermann e sua assistente Françoise. Aos 30 anos, ela já sabia muito sobre retrovírus.
Em 1982, Montagnier ouviu falar pela primeira vez na "peste GAY", que era um mistério nos Estados Unidos. Sabia também que o americano Robert Gallo, do National Institute of Health, acreditava ser um retrovírus o causador da doença. Havia poucos doentes na França, mas Montagnier conseguiu uma biópsia extraída de um jovem GAY com sintomas de AIDS. "Quinze dias depois, Françoise encontrou os primeiros sinais da presença de um retrovírus no material cultivado", escreveu Montagnier num ensaio histórico publicado na revista Science, em 2002. As etapas seguintes comprovaram que eles estavam diante de um retrovírus novo. Segundo o francês, pelo menos seis laboratórios receberam amostras desse vírus.
25 milhões de pessoas morreram de AIDS em todo o mundo desde o início da epidemia
Em maio de 1983, a equipe publicou um artigo científico no qual afirmava ter isolado um novo vírus que poderia ser a causa da AIDS. Alguns meses depois, em 1984, Gallo publicou evidências de que o HIV era o causador da AIDS. Gallo foi acusado de ter usado uma amostra de vírus que teria sido retirada do laboratório do francês. O desvio nunca foi comprovado, mas um teste mostrou que o material usado por Gallo era geneticamente similar ao cultivado pela equipe de Montagnier. Além do mérito acadêmico, os dois disputaram o direito de patente sobre o teste de diagnóstico criado a partir do vírus. O impasse foi resolvido em 1987 com um acordo entre a França e os Estados Unidos. O direito dos dois cientistas à patente foi assegurado. Ao saber da premiação, Montagnier afirmou que gostaria que Gallo também tivesse recebido o Nobel. "Ele mereceu tanto quanto nós", afirmou. Gallo disse ter ficado grato com o comentário.
"A única que realmente merece o Nobel é Françoise", disse a ÉPOCA o americano Douglas D. Richman, diretor do centro de pesquisas sobre AIDS da Universidade da Califórnia, em San Diego. "Ela foi a primeira a isolar o HIV." Richman e outros estudiosos acreditam que Montagnier assinou o artigo científico junto com Françoise porque ele era o diretor da instituição. Esse é um costume comum em países como a França e o Brasil, onde a vida acadêmica é bastante hierarquizada.
Até a semana passada, Françoise era ignorada pelo público. Fora do círculo de pesquisadores da AIDS, ninguém conhecia o rosto da mulher que lançou luzes sobre uma das maiores pragas já enfrentadas pela humanidade. Em 1981, quando os primeiros casos da doença desconhecida surgiram entre os homossexuais de Nova York, a reação da sociedade variava entre a indiferença e a hostilidade. As vítimas morriam nas ruas. Dois anos depois da descoberta de Françoise, os primeiros testes de detecção do vírus estavam disponíveis comercialmente. Em meados dos anos 90, surgiu o coquetel que fez da AIDS uma doença administrável. Françoise é descrita como uma pessoa simpática, acessível e interessada em formar novas gerações de cientistas. Uma de suas maiores preocupações é o flagelo que a doença provoca em países pobres da África e da Ásia. Estava no Camboja quando recebeu a notícia do prêmio. Ela não acredita que uma vacina possa surgir nos próximos anos. "Fomos ingênuos quando descobrimos o vírus e achamos que uma vacina surgiria rapidamente."
A descoberta do papel de outro vírus, o HPV, como causador do câncer do colo do útero também rendeu o Nobel a Harald zur Hausen, do Centro Alemão de Pesquisa do Câncer, em Heidelberg. Nos anos 70, ele lançou a idéia ousada de que o HPV, conhecido por causar verrugas genitais, também provocava câncer. Não apenas provou que estava certo como também descobriu diversos tipos do vírus. Em 1983, provou que o HPV-16 causava a doença. O segundo tipo isolado foi o HPV-18, retirado de uma biópsia realizada numa brasileira do Recife. Essas duas versões do vírus causam 70% dos tumores do colo do útero. O trabalho do cientista alemão teve um enorme impacto na saúde pública. Uma em cada quatro mulheres contrai o HPV. Na maioria dos casos, o organismo elimina o invasor naturalmente, mas a mulher pode ser infectada outra vez. Apenas 1% das infectadas desenvolve a doença, que atinge 40 mil brasileiras a cada ano. Recentemente, surgiram duas vacinas contra o vírus. É improvável que o mesmo ocorra com o HIV nos próximos anos. Mas não é impossível, como comprovam os exemplos de criatividade e perseverança dos premiados com o Nobel. OS VENCEDORES
Françoise Barré-Sinoussi, de 61 anos, pela descoberta do vírus da AIDS
Luc Montagnier, de 76 anos, pela descoberta do vírus da AIDS
Harald zur Hausen, de 72 anos, por provar que o HPV causa câncer do colo do útero
O PERDEDOR
Robert Gallo, de 70 anos, não foi considerado co-autor da descoberta do HIV
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