Pessoas com níveis indetectáveis têm risco menor de transmissão
Infectologista defende antecipação de tratamento como forma de prevenção
O Estado de S.Paulo Lígia Formenti
Integrante do comitê que define o consenso terapêutico adotado no País para a AIDS, o infectologista Celso Ramos Filho vai defender a antecipação do tratamento no encontro do grupo, programado para junho. "Estudos indicam que as pessoas em tratamento, com níveis indetectáveis do HIV, têm risco muito reduzido de transmiti-lo sexualmente."
Um dos critérios adotados para indicação da terapia é a contagem de células de defesa (linfócitos), por meio do exame CD4. Em geral, pacientes que não apresentam sintomas da doença começam a usar remédios quando o CD4 é inferior a 350 células/ml.
A proposta é de que a indicação comece a ser feita com índices mais altos, que variam entre 350 e 500 células/ml. De acordo com o infectologista Ronaldo Hallal, entre 15 mil e 20 mil pessoas apresentam hoje esses índices de CD4 no País.
Ramos Filho salienta que a antecipação do tratamento não significa o abandono do PRESERVATIVO. "A recomendação é de que o portador continue usando proteção. O medicamento entraria como um reforço."
O infectologista também afirma que a chamada prevenção do tratamento já é adotada em alguns países. "O Brasil sempre se mostrou cauteloso, mas acho que é chegada a hora de o assunto ser olhado com mais atenção", defende.
Na antecipação do tratamento, vários pontos terão de ser discutidos entre os especialistas. "Uma das preocupações é a de que haja maior risco de falhas na adesão do tratamento, o que pode aumentar a possibilidade de resistência do vírus", explica Hallal. Outra preocupação é a de que o tratamento precoce aumente o risco de aparecimento de efeitos colaterais.
Polêmica. O assunto promete render muita polêmica. O infectologista do Programa de AIDS do Estado de São Paulo Artur Kalichmann observa, por exemplo, o problema de custos. "É preciso avaliar bem todos os aspectos, sobretudo para garantir que haja sustentabilidade do programa", alerta.
Como a parcela de pessoas que se encaixa na possibilidade de antecipação do tratamento não é grande, o assessor do departamento avalia que o impacto no orçamento não será muito significativo. "Há um benefício, que é a prevenção de contaminações. Isso tem de ser levado em conta quando o comitê for decidir sobre a questão."
As discussões já começaram há algum tempo, em encontros regionais entre especialistas. Uma vez finalizada, a decisão do consenso terapêutico será encaminhada ao DEPARTAMENTO DE DST-AIDS e Hepatites Virais
Filhos de casal com um soropositivo serão discutidos
A redução do risco de transmissão do vírus causador da AIDS em pacientes que estão em tratamento pode provocar ainda outra alteração.
O consenso vai avaliar a possibilidade de se indicar para casais formados por um SOROPOSITIVO em tratamento e uma pessoa sem o vírus que queiram ter filhos a possibilidade de ter relações sexuais desprotegidas, com risco reduzido de transmissão da doença.
"A ideia é fazer o aconselhamento, indicar todas as terapias possíveis", afirma o infectologista Ronaldo Hallal.