Mulheres tecem ações pela vida
O Ceará sediou o primeiro encontro visando ao protagonismo das trabalhadoras do sexo na prevenção das DST/Aids
Diário do Nordeste - CE Ludmila Wanbergna
Num contexto de tendências em que o vírus HIV está chegando com força ao interior dos estados, tem infectado um número maior de excluídos socialmente e de mulheres, o Ceará vem lutando contra essa realidade em diversas frentes. Nesta semana, foram as prostitutas que declararam um importante apoio extra não só ao Estado como a todo o País.
Reconhecido pelo Ministério da Saúde (MS) como um dos mais organizados desse movimento de mulheres, o Ceará se juntou a outros cinco estados da Federação — Rio de Janeiro, Mato Grosso do Sul, Santa Catarina, Pará e Alagoas — para fortalecer a rede nacional de ação solidária a fim de promover e ampliar o acesso à informação, desenvolver o protagonismo das trabalhadoras do sexo na prevenção das DST/Aids e fortalecer o papel político das prostitutas na sociedade.
Tudo isso fruto do projeto "Mulheres Tecendo Ações pela Vida”, contemplado recentemente, com apoios técnico e financeiro, pelo Ministério da Saúde por meio de edital público. À frente do projeto, a Associação das Prostitutas do Ceará (Aproce) juntou a vontade de instalar associações de trabalhadoras do sexo Brasil afora diante da falta de protagonismo dessas mulheres em muitos rincões do País com a necessidade de estabelecer estratégias de trabalho em rede para enfrentar a feminização da Aids.
Só para se ter uma idéia, se na década de 1980, quando a Aids começou a fazer suas vítimas, a razão era de 26 homens contaminados para cada mulher infectada, hoje, a relação é de quase um para um.
Os dados são de Jeane Félix, assessora técnica do Departamento de DST/Aids do Ministério da Saúde. Para complementar, segundo a Federação Nacional das Trabalhadoras de Sexo (FNTS), no período de 1995 a 2005, o aumento foi de 44% entre as mulheres.
Com base nesse argumento e em outros — como violência, exploração e abuso sexuais, pobreza, falta de acesso à saúde e exclusão social — que tornam as mulheres mais vulneráveis às DSTs e ao HIV, a Aproce com a FNTS submeteram o projeto ao crivo do MS e saíram vencedoras. Ontem, 30 mulheres do movimento nacional e a técnica do ministério terminaram o primeiro encontro de formação política da rede, que durou quatro dias. Ele ajudou a trocar experiências e a traçar planos de ação para o fortalecimento da causa nas regiões do País.
“A gente quer ir além da informação. Queremos estimular a participação das prostitutas em fóruns e em outras articulações do movimento social; nos Conselhos Municipais e Estaduais de Saúde, da Mulher, dos Direitos Humanos etc. Além disso, pretendemos trabalhar na prevenção de DST/Aids por meio de oficinas, encontros, visitas a casas de prostituição mapeadas neste encontro e demais eventos”, explica a presidente da Federação, Rosarina Sampaio.
VÍRUS DO HIV
Número de infectados supera os registros
No Ceará, o contexto de tendências não é diferente daquele que se apresenta nacionalmente. É o que diz Telma Martins, coordenadora do Programa Estadual de DST/Aids. Segundo o último boletim epidemiológico da Secretaria da Saúde do Estado, até junho deste ano, foram notificados 8.614 casos, sendo 29,4% deles em mulheres. De 2002 a 2008, em média, 627 novos casos foram notificados por ano.
Desde 2003, acrescenta Telma, passou-se a se observar um declínio no número de casos. Fato que não alivia as preocupações em torno da questão. “É preciso entender que o número de casos que se confirmam não refletem de fato a quantidade de pessoas que hoje estão infectadas. Ou seja, hoje em dia, há mais gente infectada do que os registros mostram”, explica.
Vale ressaltar também que 16 municípios — que concentram 51% da população — apresentam 80% dos casos de Aids. Fortaleza, sozinha, detém 5.421 deles. E como prova da tendência de feminização da infecção pelo vírus HIV aqui no Estado, em 1987, a relação era de 11 homens contaminados para cada mulher. Em 2008, a razão já era de dois homens por mulher. “Muitos são os entraves, especialmente o fato de grande parte da população ainda achar que não corre nenhum risco”.
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